Wednesday, January 17, 2007

Memórias curtas....

Quando era mais nova, bem mais nova, andava ainda na escola primária, lembro-me das Presidenciais que puseram frente a frente Mário Soares e Freitas do Amaral. Lembro-me que fazíamos na escola debates e jogos em que as equipas eram os pró-Soares e os pró-Freitas. Na altura, ia-se calhar a uma equipa por uma qualquer coincidência que podia ir desde estar lá o menino de quem gostávamos, ou a nossa melhor amiga, ou porque simplesmente era a equipa que precisava de mais um membro. Lembro-me como se de um filme muito antigo se tratasse, de estar em cima de um muro, oposto ao muro da outra equipa, a vociferar argumentos que eu nem bem entendia mas que trazia decorados de casa, ou por os ouvir dos meus pais ou por os reproduzir da televisão.

Hoje com o iminente Referendo à Despenalização do Aborto, e com todo o debate que se tem gerado em torno da questão, por vezes acho que estou a voltar no tempo e a rever aqueles argumentos decorados que usei com os meus coleguinhas, na primária.
Não me recordo ao certo quanto tempo passou desde o último referendo a este mesmo tema mas o que sei é que durante esse período, os movimentos pró e contra, parece que se desfizeram ou emudeceram, pelo menos. Eu, que não sei que posição hei-de tomar, gostava de ter sido esclarecida antes, sobre os motivos, objectivos de cada uma das correntes de opinião, antes e não agora que a informação é, como em todas as campanhas, mais desinformativa do que informativa.
Não entendo os fundamentalismos e mais uma vez, quando leio certas coisas por aí (a blogosfera parece rendida ao tema) recordo-me da minha campanha na escola primária. Queríamos ganhar, esgrimíamos argumentos e números, e fechávamos os olhos, tapávamos os ouvidos, aos argumentos dos outros. Éramos estanques, como me parecem ser estes agora. Só que estes não são crianças e era bom que percebessem que não se trata de ganhar ou perder, não se trata de ficar na equipa mais ou menos popular, trata-se de encontrar um meio termo, uma saída racional mas digna. Fechar os olhos ao aborto parece-me cínico, desonesto até. Mas liberalizá-lo parece-me um tiro no pé para não dizer um suicídio. Eu tenho dúvidas que gostava de ver esclarecidas. Mas é tarde demais. Porque esta campanha é como a política, é apenas para os que lá estão. Usam-se palavras caras, termos elitistas, porque na maioria são pessoas que mais do que querer ser ouvidas, gostam de se ouvir.

4 comments:

Anonymous said...

Informa-te, não pelas campanhas mas pelos teus próprios meios.
Tens 23 dias, não chega? ou simplesmente não te intressa o suficiente?

Sara Magalhães said...

Na minha óptica, os argumentos dos movimentos pró e contra parecem denunciar pressupostos diferentes, resultando numa linguagem confusa e, consequentemente, numa opinião pública confusa: ora se é contra o aborto, ora se é a favor da despenalização do aborto...assim ninguém percebe ao certo o cerne da questão, mesmo que, à partida, tenhamos uma posição bem vincada sobre o assunto. Uma coisa é certa: o facto de estarmos a repetir o mesmo referendo, num espaço tão curto de tempo, tem, seguramente, algum significado..

Shadowboxer said...

Não te quero influenciar, mas já influenciando: http://arrastao.weblog.com.pt/arquivo/2006/12/porque_voto_sim

lenca said...

Sara,

Essas são, precisamente, algumas das questões que me preocupam e confundem.

Shadowboxer,

O texto é de facto enorme mas parece-me esclarecedor, vou ler sim.