Sunday, April 30, 2006

Gosto muito de I...

...palavras, frases, expressões que retratem na perfeição aquilo que muitas vezes queremos dizer com palavras nossas e não conseguimos. Até que um dia lemos "precisamente" aquilo que tinhamos pensado num dado momento e que nos ficou entalado no meio da garganta numa espécie de som que nao conseguiu sair de debaixo da língua.
Mas bom, adiante, que não me quero prender com questões fonéticas.
Falo de conteúdo, como já se deve ter percebido no parágrafo anterior. Nunca vos aconteceu estar a ler um livro e ler uma frase ou uma expressão que descreve exactamente uma sensação que já tendo sentido não tinham ainda conseguido descrever em palavras? Perdoem-me a expressão banal mas "adoro quando isso me acontece" apesar de ficar com uma pequena ponta de inveja por não ter conseguido eu ter escrito ou dito aquilo mesmo que por palavras menos elaboradas mesmo que numa combinação não tão bem conseguida.
Ia eu a dizer agora que há escritores mais propensos a "fazer essas descobertas" essas "viagens ao interior das nossas mentes" mas parando agora para pensar concluo que não é bem assim, Acho agora (que o bom do ser humano é também esta capacidade de, pensando, podermos mudar de ideias) que talvez cada um de nós se descobre a si mesmo nas palavras de escritores diferentes. Um Somerset Maugham para mim poderá ser um Stendhal para alguém. Um Alessandro Baricco para mim (Oceano mar acho que é dos meus livros mais sublinhados, Sim, incluo-me na categoria de hereges que sublinham os livros) poderá ser, porque não, uma Margarida Rebelo Pinto para alguém...
Eu gosto, apesar da inveja que admito, de ler nas palavras escritas por alguém, sentimentos e sensações que, mesmo já tendo sentido ainda não tinha conseguido pôr em palavras e agora, ao escrever este texto percebo que não há um nem dois escritores que nos compreendam a todos. Afinal de contas o que hoje em dia não faltam são escritores por isso, tentem vocês encontrar aqueles que melhor vos hão de compreender. Eu, já encontrei os meus.

5 comments:

Anonymous said...

(Eis um dos meus exemplos...)

A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza,
produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los
não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção.
Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem
dinheiro. Ou pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a
ele.

In Pensamentos (Mia Couto)

CM XX

olho de fogo said...

A ficção constrói mundos paralelos que espelham a realidade de uma forma que, muitas vezes, nos sobressalta e extasia.
Se quisermos saber tudo sobre a vida basta ler os poetas. Por vezes, num verso dizem o que muitos levariam vários volumes para dizer. Eles têm a sabedoria da vida, a sensibilidade para apreender os pormenores e a essência das coisas, eles têm o talento para traduzir isso em palavras, ainda por cima em palavras belas. Essas palavras quando nos fazem estremecer significa que são um espelho de nós próprios, que sentimos o que o outro sente. É o verbo que se faz carne, a palavra que se faz carne no nosso corpo. Quem lê bebe o sangue de quem escreve, numa relação antropofágica.

lenca said...

Deixo uma de um dos livros que referi no post...


"Queria salvar-me, isso: salvar-me. Mas percebi tarde demais para que lado era preciso ir: para o lado dos desejos. Esperamos que sejam outras coisas que nos salvam: o dever, a honestidade, sermos bons, sermos justos. Nada disso, são os desejos que nos salvam. São a única verdade. Estando com eles, salvamo-nos. “

"Oceano Mar", Alessandro Baricco

olho de fogo said...

As citações de Mia Couto e Alessandro Baricco são muito interessantes. E é também interessante partilhá-las porque cada um de nós nunca conseguirá ler todos os livros que gostaria de ler.

Num comentário anterior referi que quem lê bebe o sangue de quem escreve, numa relação antropofágica. Faltou dizer, adequadamente, antropofágica e... vampírica.

lenca said...

Talvez seja a tentativa de nós, leitores, "sugarmos" a essência das palavras.

Ainda a propósito de serem os poetas quem melhor descreve a vida. Apesar das minhas dúvidas em relação a isso (acho-os quase sempre demasiado calamitosos, demasiado fundamentalistas) deixo uma expressão de Agostinho Baptista da qual gosto especialmente:
""Se às vezes, se em certos casos, a poesia imita a vida e a vida imita a poesia, então talvez cada verso seja uma linha da cabeça, uma linha do coração, uma linha da vida. "